É um dos mitos mais divulgados e favoritos da pseudociência de Hollywood: os  seres humanos utilizam apenas 10% do cérebro e despertar os 90% restantes – supostamente inativos – permite que os seres humanos comuns demonstrem habilidades mentais extraordinárias. Em Phenomenon (1966), John Travolta adquire a capacidade de prever terramotos e consegue aprender instântaneamente línguas estrangeiras. Scarlett Johansson torna-se mestre artes marciais em Lucy (2014). E em Limitless (2011) Bradley Cooper escreve um romance durante a noite.

O seu plano de produção para filmes de fantasia é também um dos favoritos do público em geral. Numa investigação, 65% dos enrevistados concordaram com a afirmação: “As pessoas utilizam apenas 10% do cérebro diariamente”. Mas a verdade é que usamos todo o nosso cérebro diariamente.

Como é que sabemos?

Por um lado, se precisássemos de apenas 10% do cérebro, a maioria das lesões cerebrais não teria consequências discerníveis, já que o dano afetaria partes do cérebro que não estavam a fazer nada. Nós também sabemos que a seleção natural desencoraja o desenvolvimento de estruturas anatómicas inúteis: os primeiros humanos que dedicaram recursos físicos escassos a crescer e a manter enormes quantidades de excesso de tecido cerebral teriam sido superados por aqueles que gastaram esses recursos  preciosos em coisas mais necessárias para a sobrevivência e reprodução. Sistemas imunológicos mais intensos, músculos mais fortes, cabelos mais bem vistos – praticamente qualquer coisa seria mais útil do que ter uma cabeça cheia de tecido inerte.

Conseguimos provar essas conclusões lógicas com evidências concretas. As técnicas de imagem, como tomografia por emissão de positrões e ressonância magnética funcional (IRMf), permitem que médicos e cientistas mapeiem a atividade do cérebro em tempo real. Os dados revelam claramente que grandes áreas do cérebro – muito mais de 10% – são usadas para todo o tipo de atividades, desde tarefas aparentemente simples, como descansar ou olhar imagens para outras mais complexas, como ler ou fazer matemática. Os cientistas ainda não encontraram uma área do cérebro que não faça absolutamente nada.

Então, como chegamos a acreditar que 90% do nosso cérebro é inútil? O mito muitas vezes é incorretamente atribuído ao psicólogo do século XIX, William James, que propôs que a maior parte do nosso potencial mental não é aproveitado. Mas ele nunca especificou porcentagem. Albert Einstein – um imã para atribuição de erradas citações – também foi responsabilizado. Na realidade, o conceito provavelmente surgiu na indústria de auto-ajuda americana. Uma das primeiras menções surge no prefácio do best-seller de 1936 de Dale Carnegie, “How to Win Friends and Influence People” (em tradução livre, Como Fazer Amigos e Infuênciar as Pessoas). A ideia de que aproveitamos apenas uma fração do potencial total do nosso cérebro tem sido uma base forte para os gurus motivacionais.

Obviamente, esta é uma péssima notícia para quem espera encontrar o segredo para se tornar um génio durante a noite. A boa notícia, no entanto, é que o trabalho árduo ainda funciona. Há muitas razões para acreditar que podemos desenvolver a força intelectual de forma a trabalhar regularmente em tarefas mentais desafiadoras, como tocar um instrumento musical, fazer aritmética ou ler um livro.

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