Fornecer um toque literal à frase “atirar os vagabundos para fora do escritório”, é especialidade dos cidadãos de Praga, visto que tal aconteceu em duas vezes na sua história: primeiro em 1419 e novamente em 1618, os cidadãos frustados de Praga (hoje República Checa) literalmente atiraram os seus líderes para fora da janela do andar superior dos edifícios públicos.

A palavra que reflete o ato de atirar alguém ou algo fora de uma janela, a defenestração, também é utilizada por vezes para significar descartar a autoridade de uma pessoa; E com ambas as defenestrações de Praga, ambos os significados, surpreendentemente, se aplicam.

Cada um dos eventos ocorreu, como muitas disputas, na interseção da religião e política. Com o primeiro momento a acontecer no século XV, houve uma enorme quantidade de descontentamento interno devido à Igreja Católica; Em particular, as pessoas comuns (povo) foram prejudicadas com a quantidade relativa de riqueza mantida pelo clero e a nobreza em comparação às classes mais baixas, como os camponeses.

Como resposta, surgiram pregadores radicais, incluindo um sacerdote relativamente popular da seita Hussite, chamado Želivsky. Depois que o conselho da cidade de Praga se recusou a libertar alguns membros hussitas que prendeu, Želivsky levou os seus seguidores numa marcha de protesto até à entidade pública, Novomēstská radnice.

Durante a marcha, algum funcionário público atirou uma pedra a Želivsky: Este evento acendeu o fogo sob a multidão, que então invadiu o prédio onde encontraram um juiz e 13 membros do conselho. Todos os oficiais logo foram expulsos de uma janela dos andares mais altos do prédio. Aqueles que não morreram da queda foram mortos pela multidão que os esperava em baixo.

A segunda defenestração surgiu de uma disputa entre protestantes e católicos.

Durante quatro décadas, após a reforma de Martinho Lutero católicos e protestantes em toda a Europa envolveram-se num conjunto de disputas.  Em 1555, o imperador romano católico (que também era o Rei da Boémia, de que Praga era sua capital) e os seus principes e nobres luteranos resolveram a sua disputa (provisoriamente) com a paz de Augsburgo.  Durante as próximas seis décadas, boas relações floresciam entre eles, o que levou o rei da Boémia a gradualmente dar aos nobres uma liberdade religiosa cada vez maior e aumentar os poderes civis e legais.

Em 1618, esses sentimentos apaixonados chegaram a um fim abrupto com o governo do novo herdeiro ao reino, um católico devoto a favor da Contra-Reforma (para re-impor o catolicismo na europa) cresceu no poder e conseguiu eventualmente remover grande parte do poder atribuido aos nobres protestantes – ao ponto de ter dissolvido a sua assembléia.

Em 23 de maio de 1618, vários desses nobres protestantes, compreensivelmente enfurecidos, confrontaram quatro senhores católicos da Chancelaria da Boémia, exigindo saber o que se tinha passado. Dois dos senhores católicos, o conde Vilem Slavata de Chlum e o Conde Jaroslav Borzita de Martinice, orgulharam-se das suas ações e rapidamente assumiram a responsabilidade, afirmando que seriam presos todos os que não concordavam com a decisão.

Os lordes protestanes tinham outros planos. Um dos líderes do grupo, o Conde Matyáš von Thurn, fez as seguintes proclamações enquanto a multidão o observava: “Vocês são nossos inimigos e da nossa religião, desejaram privar-nos da nossa Carta de Majestade… E tentaram forçar-nos a adotar a vossa religião contra as nossa vontades ou expulsavam-nos… ” Depois declarou à multidão que o acompanhava: “Queremos manter esses homens vivos, então perderíamos a Carta de Majestade e a nossa religião… pois não pode haver justiça a partir de ou por eles…”

Pouco tempo depois, a multidão atirou ambos os Condes, juntamente com o secretário, Philipus Fabricius, da janela do terceiro andar; Notavelmente todos os três sobreviveram à queda, bem como todo o incidente – apesar de havar uma multidão enfurecida de protestantes a assistir aos eventos. Ao contrário da primeira defenestração, aparentemente não havia ninguém para acabar o serviço.

Posteriormente, foram ditas duas versões muito diferentes da sobrevivência dos Lordes Católicos. Os católicos mais tarde alegaram que a Virgem Maria e os anjos colocaram-nos gentilmente no chão. Em resposta, os protestantes afirmaram que havia uma grande pilha de matéria fecal logo abaixo das janelas, que amorteceram a queda.

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