Tsutomu Yamaguchi faleceu com uma patologia oncológica no estômago. A causa da morte não é surpreendente, visto que Yamaguchi é atualmente a única pessoa oficialmente conhecida pelo governo japonês como tendo sobrevivido aos atentados atómicos de Hiroshima e Nagasaki. (Nota: Havia, na verdade, bem mais de 100 ou mais, talvez até 165, mas nunca foram oficialmente reconhecidos pelo governo japonês até a data). O que é surpreendente, vista esta história, é que Yamaguchi conseguiu contornar a doença durante muito tempo, falecendo apenas em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos.

Aos 29 anos, Yamaguchi estava de regresso a casa após uma viagem de negócios de três meses a Hiroshima a 6 de agosto de 1945. Na altura, ele trabalhava como engenheiro da Mitsubishi Heavy Industries, especificamente, no departamento de design. No caminho de regresso a casa em Nagasaki, ele notou que se tinha esquecido da sua autorização de viagem e voltou a buscá-la enquanto os seus colegoas, Akira Iwanaga e Kuniyoshi Sato, continuaram.

Após recuperar o passe de embarque, voltou para estação quando, às 8h15, viu um bombardeiro a voar sobre a cidade e “dois pequenos pára-quedas”, então uma onda de luz, som, vento e calor cegantes derrubou-o ao chão. Yamaguchi teve o infortúnio de estar a aproximadamente a 3km de uma explosão nuclear. Os efeitos imediatos foram uma ruptura no canal auditivio, cegueira temporária e queimaduras em grande parte da zona superior do corpo.

Passada a desorientação inicial, e apesar dos ferimentos, Yamaguchi conseguiu abrir caminho para um abrigo aéreo onde se encontrou com os seus dois colegas que também haviam sobrevivido à explosão. Permaneceu nesse abrigo a noite e pela manhã, ele e os seus colegas regressaram a Nagasaki, conforme planeado. Quando lá chegou, recebeu tratamento das feridas de um hospital local e até sentiu-se bem o suficiente para regressar ao trabalho no dia 9 de agosto, apenas 3 dias depois…

Claro, Yamaguchi teve que explicar as suas queimaduras aos seus colegas de trabalho. O seu chefe estava estava incrédulo que apenas uma explosão era capaz de obliterar completamente uma cidade. “Você é um engenheiro”, disse ele a Yamaguchi, “calcule a energia daí resultante… Como é que uma bomba consegue destruir uma cidade inteira?” O chefe falou demasiado cedo. Segundo Yamaguchi, durante esta conversa, as sirenes de ataque aéreo dispararam e, uma vez mais, viu uma luz branca que o cegara. Ele caiu imediatamente no chão; já estava familiarizado com o ruído que resulta daquela explosão. Yamaguchi afirmou: “Julguei que a nuvem de cogumelos havia me seguido desde Hiroshima”.

Ambas as bombas explodiram junto aos centros da cidade e ambos, curiosamente, estavam a acerca de 3km da posição de Yamaguchi na altura. Apesar de esta explosão ser ligeiramente mais poderosa do que aquela em Hiroshima (21 kilotons vs 16 kilotons em Hiroshima), graças ao terreno irregular da cidade foram igualmente distribuidas por água, o que resultou em menos danos do que em Hiroshima. O próprio Yamaguchi não sofreu nenhuma lesão imediata nesta segunda explosão, embora, claro, tenha sido exposto a outra dose elevada de radiação ionizante e os suprimentos médicos para tratar as suas queimaduras existentes já estavam em falta.

Nagasaki não era o alvo original para o segundo ataque nuclear – era a cidade de Kokura. No entanto, graças a uma nuvem que cobria Kokura quando o bombardeiro chegou, eles tiveram que desviar para um alvo secundário, Nagasaki, como a missão estipulava que não deveriam soltar a bomba a menos que tivessem uma visão do alvo. Quando o bombardeiro sobrevoou Nagasaki, eles encontraram uma cobertura de nuvens que pairava sobre a cidade, mas porque estavam com pouco combustível, não era possível desviar para outro alvo, então lançaram a bomba sobre aquela cidade, apesar das suas ordens. Quando chegaram suficientemente próximo, antes de a largarem, tiveram um breve tempo de visão sobre o alvo para confirmar a localização antes de a deixar cair. Se tivessem mais combustível ou não houvesse nuvens sobre Kokura, Yamaguchi e uma porção não insignificante da população japonesa teriam falecido.

Surpreendentemente, ao contrário de tantos outros que apenas sofreram com uma das explosões, Yamaguchi passou a viver uma vida longa e produtiva com o único grande problema de saúde física que o afetou permanente como resultado das bombas: perda de audição na orelha esquerda. As queimaduras levaram algum tempo a curar; perdeu temporariamente todo o cabelo e foi afetado por traumas psicológicos, como era de esperar. Ele a sua esposa, Hisako, ainda passaram a ter filhos, que tdos se mostraram perfeitamente saudáveis, o que pelo menos na altura, não tanto hoje, foi pensado ser um milagre dadas as circunstâncias. Afinal, tinha sido expostos a níveis elevadíssimos de radiação ionizante.

A esposa de Yamaguchi viveu até os 88 anos, morrendo de uma patologia oncológica no rim e fígado. O próprio Yamaguchi viveu até uma idade de 93 anos e, durante a maior parte de sua vida, fez pouca menção ao facto de estar presente em ambos os atentados. Inicialmente ficou registado como sobrevivente de Nagasaki. Segundo uma das filhas, o seu pensamento para minimizar a sua situação e não se registar como sobrevivente de Hiroshima foi a sua saúde robusta durante a maior parte da sua vida. Este sentiu que seria falta de respeito para os demais milhares que não tiveram a mesma sorte.

Uma vez na década de 80, ele alterou a sua posição, rompendo o silêncio sobre o assunto e solicitando oficialmente o reconhecimento como sobrevivente de ambas as explosões, que foi concedido pelo governo japonês em 2009, pouco antes da sua morte. Posteriormente, dedicou o resto da sua vida a fazer campanhas pelo desarmamento nuclear de todas as nações. Chegou, inclusive, a escrever um livro descrevendo a sua experiência, que incluiu muitos poemas que ele escreveu sobre o acontecimento trágico.

Apesar de tudo, Yamaguchi considerou-se afortunado. Como disso pouco antes da sua morte, “eu poderia ter morrido em qualquer um daqueles dias. Tudo o que se seguiu foi um bonus”.

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