Não é um segredo altamente protegido que as comidas e bebidas que ingerimos contêm alguma porcentagem de arsénio, um elemento químico que, quando consumidro em grandes quantidades, pode ser extremamente tóxico e até provocar a morte. Por esta razão, existe um vasto conjunto de regulamentação que define o limite máximo dessa substância na água, por exemplo.

Todavia, conforme apontou o investigador Julian Tyson num artigo publicado no portal The Conversation, assim como ocorre nos Estados Unidos e em outros países pelo mundo, o controlo da concentração de arsénio nos alimentos e bebidas pode não ser assim tão rigoroso quanto o exigido. A questão é a seguinte: será que a falta de regras legais e de segurança podem afetar a nossa saúde? Afinal isso é que realmente importa responder.

arsénio

Segundo o investigador, os compostos derivados do arsénio que normalmente estão presentes nos alimentos são, em regra, inofensivos para os seres humanos. Um perfeito exemplo são os frutos do mar, os produtos que consumimos com a maior concentração de arsénio.

Concentração

trigo

O grande problema é que conhecemos muito pouco à cerca da concentração de arsénio em outros alimentos – absorvido através do uso de herbicidas, pesticidas, aditivos etc. ou por meio do próprio solo, já que, afinal, o elemento está presente na sua forma natural -, e é precisamente aqui que reside o perigo. Até onde se tem conhecimento, o único produto largamente consumidor e que oferece risco de intoxicação a longo prazo é o arroz e os seus derivados, como farinha, cereais, biscoitos e bolos, por exemplo.

As análises revelaram que 95% do arsénio liberado durante o processo de preparação do arroz são provenientes de quatro compostos – inorgânicos e metilados – derivados desse elemento químico, e todos são potencialmente cancerígenos para os humanos. No entanto, para determinar o risco de consumo, primeiro é necessário definir a concentração dos compostos em cada produto, a quantidade ingerida de alimento e a frequência dessa ingestão.

arroz

No caso do arroz, Julian afirmou que alguns investigadores sugerem que o consumo máximo diário – para evitar o risco de desenvolver algum tipo de doença por intoxicação de arsénio – deve ser até 1/4 de uma chávena de arroz cru contendo não mais do que 50 partes por bilião do composto para adultos. Já para as crianças, a quantidade deve ser ainda menor, em proporção à massa corporal.

Acontece que alguns exames revelaram que uma grande variedade de tipos de arroz e produtos derivados contêm concentrações de arsénio bem superiores ao limite máximo recomendado. Adicionando o facto de que o arroz integral, surpreendentemente, apresenta uma quantidade mais elevada do elemento químico do que o arroz branco.

Julian explicou que as pessoas que não consumem arroz em quantidades superiores à recomendada provavelmente não precisam de se preocupar. Mas acrescentou que alguns grupos nos EUA, celíacos e crianças – deveriam ter cuidados redobrados. Coincidentemente, o grupo étnico com a maior incidência de casos de doenças oncológicas no país é o dos asiáticos.

Exposição

arroz

De acordo com o investigador, a tecnologia necessária para detetar a presença de arsénio em alimento surgiu há relativamente pouco tempo, e os primeiros testes com o arroz só foram realizados no final da década de 90. Além disso, a proporção da contaminação em escala mundial apenas foi revelada em 2005, e atualmente – apesar de ainda serem pouco precisas – as análises mostram que independente da origem e do tipo, todas as classes de arroz contêm arsénio.

Nos Estados Unidos, a contaminação deve-se ao facto de o arroz muitas vezes ser cultivado em campos que, no passado, foram utilizados para a plantação de algodão. A produção de vegetais envolve a utilização de ácido cacodílico como herbicida e do ácido arsénico para matar as plantas antes da colheita.

Como resolver a questão?

Além do arroz, muitos dos compostos derivados que ingerimos através de comidas e bebidas são fruto de processos relacionados com o arsénio que existe naturalmente distribuído em abundância pela Terra. E, segundo Julian, não há um consenso entre os cientistas a respeito de como estimar quais são os riscos associados ao consumo desses elementos — nem existem métodos suficientemente satisfatórios para determinar sua concentração exata.

Mas, apesar da falta de precisão dos testes, os resultados claramente revelam dados preocupantes. As análises deixam evidente que é necessário encontrar formas de limitar e reduzir a concentração de arsénio nos alimentos que consumimos — em especial do arroz —, assim como de fiscalizar essa redução. Além disso, é preciso desenvolver tecnologias mais eficientes para que seja possível detectar a presença desse elemento com mais precisão.

Contudo, até que tudo isso aconteça, Julian sugere que o estabelecimento do limite máximo em menos de 100 partes por bilião como padrão seria um bom começo.

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