A primeira menção ao mesentério publicamente conhecida foi feita por Leonardo da Vinci num dos seus famosos e brilhantes escritos sobre a anatomia humana no início do século 16.

Acontece que, recentemente, esta parte do corpo, que até agora era apenas um ligamento do aparelho digestivo, acaba de ser reclassificada. Este é o resultado de um estudo que durou mais de seis anos e que foi publicado por cientistas que afirmam que a estrutura é, na verdade, um órgão único e contínuo.

Trata-se da mais nova descoberta do corpo humano e o primeiro grande feito científico de 2017.

“A descrição anatómica de cem anos atrás era incorreta. Este órgão está longe de ser fragmentado; é uma estrutura simples, contínua e única”, assinalou J. Calvin Coffrey, investigador do University Hospital Limerick, na Irlanda, responsável pela equipa que realizou a descoberta. A reclassificação foi publicada num artigo assinado por Coffrey e pelo seu colega Peter O’Leary na prestigiada revista científica The Lancet Gastroenterology & Hepatology.

“No estudo, que foi revisto e aprovado por colegas, dizemos que agora temos um órgão no corpo que até esta data não era reconhecido como tal”, assinalou Coffrey.

Médicos na sala de cirurgia

Nova ciência

O mesentério é uma dobra dupla do peritónio – como se chama o revestimento da cavidade abdominal – que une o intestino com a parede do abdómen e permite que ele se mantenha no lugar.

Dessa forma, o estudo das funções deste novo órgão pode abrir novas portas para métodos cirúrgicos do aparelho digestivo.

Anatomia do mesentério

Em 2012, Coffrey e os seus colegas mostraram os resultados da sua investigação com microscópio nos quais sugeriam que o mesentério tinha uma estrutura contínua, caraterística necessária para que fosse considerado um órgão.

Desde então, os investigadores dedicaram-se a recolher provas para proceder à reclassificação dessa parte do corpo humano, que culminou na publicação do artigo científico.

E embora o funcionamento do aparelho digestivo não mude com a descoberta, a confirmação de que esta estrutura é efetivamente um órgão “novo” abre caminho para novos estudos.

“Podemos categorizar doenças digestivas relacionadas a este órgão”, exemplifica Coffrey.

Aparelho digestivo humano

Função

No entanto, depois de detalhar a estrutura e as caraterísticas anatómicas, cientistas pretendem agora melhor entender a função do novo órgão, além de proporcionar sustento e permitir a irrigação sanguínea às vísceras.

“Esse é o próximo passo. Se entendermos a sua  função, podemos identificar as anomalias, e estabelecer quando há uma doença, ou seja, quando o órgão passe a funcionar de modo anormal”, afirma Coffrey, em nota enviada à imprensa.

Esboço de Leonardo Da Vinci

Esboço de Leonardo Da Vinci

O estudo, afirmam os especialistas, pode ser a chave para melhor entender algumas doenças abdominais e digestivas, bem como aprimorar os tratamentos atuais.

Ou seja, pode permitir, o desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas menos invasivas, com menos complicações ou com uma maior taxa de recuperação do paciente.

Enquanto a investigação não é concluída, uma das mudanças mais imediatas, contudo, será no ensino da medicina, que passará a incluir o mesentério na lista dos quase 80 órgãos do corpo humano que conhecemos.

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