A guerra da Síria, que começou como uma revolta pacífica contra o presidente Bashar al-Assad, converteu-se num conflito brutal e sangrento que não apenas afeta a população local, mas arrasta potências regionais e internacionais.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a guerra tenha deixado cerca de 400 mil mortos e provaco um êxodo de mais de 4,5 milhões de pessoas do país.

Continue a ler e saiba como o conflito começou e como está cinco anos após o seu início.

1. Qual era a situação na Síria antes da guerra?

Antes do início do conflito, vários sírios queixavam-se de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo de Bashar al-Assad, que haivia sucedido ao seu pai Hafez, em 2000.

Protestos em Deraa, em março de 2011

Protestos em Deraa, em março de 2011

Em março de 2011, adolescentes que haviam pintado mensagens revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul do país, foram presos e torturados pelas forças de segurança.

O acontecimento suscitou vários protestos devido à liberdade do país, inspirados na Primavera Árabe – manifestações populares que naquele momento se estendiam pelos países árabes.

Quando as forças de segurança sírias abriram fogo conta os ativistas – matando dezenas deles -, as tensões elevaram-se e mais pessoas saíram às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad.

A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No final de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.

2. Como começou a guerra civil?

À medida que os revolucionários da oposição aumentavam, a resposta violenta do governo intensificava-se.

Simpatizantes do grupo antigoverno começaram a armar-se – primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança das suas regiões.

Assad prometeu “esmagar” o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros” e restaurar o controlo do Estado.

A violência rapidamente aumentou no país: grupos rebeldes reuniram-se em centenas de brigadas para combater as forças de Assad e retomar o controlo das cidades e vilarejos.

Em 2012, os conflitos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo.

O conflito já havia, então, se transformado em mais do que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele – adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço dos Islamismo a que pertence o presidente.

Destruição em Homs, na Síria

Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.

Em junho de 2013, as Nações Unidas informaram que a contabilização de mortos já chegava a 90 mil pessoas.

3. Quem está a lutar contra quem?

A rebelião armada da oposição evoluiu significativamente desde as suas origens.

O número de membros da oposição moderada secular foi superado pelo de radicais e jihadistas – partidários da “guerra santa” islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico e a Frente Nusra, afiliada à Al-Qaeda.

Forças oficiais de segurança sírias

Forças oficiais de segurança sírias

Os combatentes do EI – cujas táticas chocaram o mundo – criaram uma “guerra dentro da guerra”, enfrentado tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra.

Também combatem o Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos estão a apoiar no norte da Síria.

Desde 2014, os EUA, junto com o Reino Unido e a França, realizam bombardeamentos aéreos no país, mas procuram evitar atacar as forças do governo sírio.

Já a Russia lançou em 2015 uma campanha aérea com o objetivo de “estabilizar” o governo após um conjunto de derrotas para a oposição. A intervenção russa possibilitou vitórias significativas das forças aéreas sírias.

Os presidentes da Síria, Bashar al-Assad, e Rússia, Vladimir Putin

Os presidentes da Síria, Bashar al-Assad, e Rússia, Vladimir Putin

Os rebeldes moderados têm requisitado armas antiaéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e os seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas no sentido de não se proliferar pelos grupos jihadistas.

4. Qual é o envolvimento das potências internacionais?

Os Estados Unidos culpam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigem que ele deixe o poder como é pré-condição para paz.

Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscovo no país.

O Irão, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerão envia para o movimento Hezbollah no Líbano – a milícia que enviou militares para apoiar as forças sírias.

Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado biliões de dólares para fortalecer as forças sírias, provendo assessores miliatares, armas, crédito e petróleo.

Raqqa, o norte do país, sob controle do 'EI'

Raqqa, o norte do país, sob controlo do ‘EI’

Contrapondo-se à influência do Irão, a Arábia Saudita, principal rival de Teerão na região, tem enviado importante ajuda militar aos rebeldes, inclusive para grupos radicias.

Outro aliado importante dos rebeldes sírios, a Turquia tem procurado limitar o apoio dos EUA às forças curdas, que a acusam de apoiar rebeldes do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão).

Os rebeldes da oposição síria têm ainda atraído apoio em várias medidas de outras potências regionais, como o Qatar e a Jordânia.

5. Qual a razão para a guerra estar a durar tanto tempo?

Um factor chave é a intervenção de potências regionais e internacionais?

O seu apoio militar, financeiro e político tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos confrontos, transformando a Síria num campo de batalha.

A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas).

As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica.

Combatente rebelde na Síria

Combatente rebelde na Síria

A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI – que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controlo de vastas partes de território no norte e leste – acrescentou outra dimensão ao conflito.

Qual é o impacto da guerra?

O enviado da ONU para a Síria, Steffan de Mistura, estimou que a guerra já matou 400 mil pessoas.

Para a organização Observatório Sírio dos Direitos Humanos, sediada em Londres, até setembro a cifra de mortos passava os 300 mil.

Já o Centro Sírio de Pesquisa de Políticas, outro grupo de estudos, calcula que o conflito já tenha causado a morte de 470 mil pessoas.

 

Homem assiste ferido em Damasco

Homem assiste ferido em Damasco

De acordo com a ONU, até fevereiro de 2016 mais de 4,8 milhões de pessoas haviam fugido do país – a maioria mulheres e crianças.

O êxodo de refugiados, um dos maiores da história recente, colocou sob pressão os países vizinhos – Líbano, Jordânia e Turquia.

Cerca de 10% deles procuram asilo na Europa, provocando divisões entre os países do bloco europeu sobre como dividir essas responsabilidades.

Deslocados sírios

Refugiados Sírios

A ONU afirmou que são necessário 3,2 mil milhões de dólares para prover ajuda humanitária a 13,5 milhões de pessoas – incluindo seis milhões de crianças – no país.

Cerca de 500 mil pessoas vivem sob o cerca de forças de segurança ou rebeldes.

Além disso, 70% da população não tem acesso a água potável, uma em cada três pessoas não consegue suprir as necessidades alimentares básicas, mais de 2 milhões de crianças não vão à escola e uma em cada cinco indíviduos vive na pobreza.

7. O que a comunidade internacional faz para acabar com o conflito?

Como nenhuma das partes é capaz de impor uma derrota decisiva à outra, a comunidade internacional há muito concluiu que a única forma de pôr fim à guerra é por via de uma solução pacífica.

Steffan de Mistura, enviado da ONU para a Síria

Steffan de Mistura, enviado da ONU para a Síria

O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação do Comunicado de Genebra, adotado em 2012 na cidade suiça, que contempla um governo de transição com amplos poderes executivos “baseado no consentimento mútuo”.

Porém, as negociações de paz de 2014, conhecidas como Genebra 2, foram interrompidas. A ONU responsabilizou o governo sírio por se recusar a discutir as exigências da oposição.

Um ano depois, a ascensão do grupo autodenominado Estado Islâmico deu novo ímpeto à procura por uma solução pacífica.

Em janeiro deste ano, Estados Unidos e Rússia conseguiram convencer as partes em conflito a participar em “conversas de aproximação” em Genebra para implementar o plano da ONU.

Mas as negociações foram suspensas ainda na fase preparatório, depois que as forças de segurança sírias lançaram uma ofensiva contra a cidade de Aleppo, no norte do país.

Soldados sírios em Homs

Soldados sírios em Homs

Este ano, as duas superpotências mundiais conseguiram negociar uma interrupção das hostilidades, com a qual os confrontos foram suspensos.

A última trégua parcial, em meados de setembro, fracassou dias depois de entrar em vigor, após um ataque letal contra um comboio de ajuda humanitária, no qual morreram 20 civis.

Os EUA culparam a Rússia pelo bombardeio – Moscovo negou as acusações.

Ataque aéreo na Síria

Ataque aéreo na Síria

Uma nova tentativa de salvar o cessar-fogo fracassou nesta semana em Nova Iorque.

Recentemente, o governo sírio anunciou um nova ofensiva militar em Aleppo para recuperar áreas controladas por rebeldes.

Após o comunicado, a cidade foi alvo de bombardeios ainda mais intensos que os vistos no país nos últimos meses.

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