O professor Frank Pantridge é lembrado como o cardiologista que inventou o desfibrilador portátil, equipamento que ajudou a salvar milhões de vidas nos últimos 50 anos.

Segundo os familiares, era também conhecido por não poupar críticas às autoridades – alguns acreditam que essa tenha sido a razão pela qual o médico, cujo centenário de nascimento foi celebrado na última segunda, não alcançou o merecido crédito no Reino Unido.

“Na nossa família, Frank é lembrado como uma grande personalidade completamente dedicada ao trabalho, mas que era o centro das reuniões familires em que ele chegava invariavelmente com uma hora de atraso”, disse Victoria Jordan, sobrinha-neta.

“Era uma companhia agradável, tinha uma forma árdua e uma opinião crítica em relação às autoridades – em particular, aos políticos”.

Expulso da escola

Quem acompanhou a infância problemática de Pantridge dificilmente arriscaria que um dia salvaria tantas vidas com a sua invenção.

Estátua de Frank Pantridge no Centro Cívico de Lisburn, na Irlanda do Norte

Estátua de Frank Pantridge no Centro Cívico de Lisburn, na Irlanda do Norte

Ele cresceu numa fazenda do vilarejo de Hillsborough, na Irlanda do Norte, e perdeu o pai aos dez anos.

Mas mesmo após ter sido expulso da escola, formou-se na vizinha Lisburn e, em 1939, concluíu o curso de Medicina na Queen’s University, em Belfast.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foi enviado para o Extremo Oriente como médico de um batalhão de infantaria. Em 1942, foi capturado em Cingapura e, como prisioneiro de guerra, passou muito tempo a fazer trabalhos forçados nos trilhos de Mianmar (antiga Birmânia).

Reconhecimento militar

O médico foi reconhecido pelo seu trabalho militar e ganhou uma medalha com a seguinte citação: “Este homem trabalhou diante das condições adversas, a meio de bombardeios, e foi inspiração para todos com quem teve em contacto. Ele permaneceu absolutamente calmo mesmo diante da mais intensa artilharia”.

Em 1950, foi nomeado como físico no Hospital Royal Victoria, em Belfast. Naqueles tempos, as doenças coronárias haviam atingido patamares de epidemia.

Os médicos sabiam que a maioria das mortes relacionadas a essas patologias resultava de um distúrbio no ritmo de batimentos cardíacos, que poderia ser corrigido com um choque elérico no peito.

Pantridge sugeriu que tais distúrbios deveriam ser corrigidos onde acontecessem – fosse na rua, no trabalho, em casa. Mas isso significa ter de usar um desfibrilador portátil, algo que ainda não existia.

Foi assim que, com a ajuda de outras duas pessoas, o professor inventou em 1965 o primeiro desfibrilador portátil do mundo, que usava as baterias dos automóveis.

O aparelho foi instalado na ambulância local e foi usado pela primeira vez em janeiro de 1966. O primeiro modelo pesava cerca de 70 kg – hoje, a versão mais moderno pesa apenas 3kg.

Desfibrilador Portátil

No Reino Unido, todavia, a invenção alcançou uma modesta participação – só em 1990 os aparelhos foram colocados nas ambulâncias.

Nos EUA, a história foi diferente. Com o chamado “Plano Pantridge”, os equipamentos foram rapidamente colocados em operação em vários hospitais do país.

Num dos casos mais emblemáticos, o desfibrilador portátil foi usado para socorrer o ex-presidente Lyndon Johnson após sofrer um ataque cardíaco na Virgínia, em 1972.

Frank Pantridge tornou-se tão conhecido em terras americanas à época que chegaram a dizer ele poderia candidatar-se ao Congresso.

Morto em 2004, Pantridge era visto como uma pessoa franca e complexa.

No seu obituário no jornal inglês The Guardian, lia-se: “Inquestionavelmente focado e brilhante, trouxe avanços para a cardiologia. Podia ser rude por vezes, mas era generoso. Para gostar de uma pessoa, tinha que respeitá-la, e daí seria um amigo leal”.

Frank Pantridge

Frank Pantridge

Muitos no campo da Medicina acreditam que a sua natureza franca, sem rodeios, e os problemas com as autoridades foram o motivo de ele não ter recebido e merecido reconhecimento.

Frank Kelly, parte integrante da equipa de que colocou o desfibrilador em produção, diz ter boas memórias do tempo em que trabalhou com o cardiologista.

“Ele era um homem muito talentoso”, disse. “Fez o desfibrilador tornar-se mais acessível e salvou muitas vidas. Ficou feliz de ter participado em tal progresso”.

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