Pela terceira vez no último ano e meio, o mundo inteiro choca-se quando, ao sintonizar a televisão nas notícias, depara-se que a França foi alvo de terríveis ataques terroristas que ceifam a vida a centenas de pessoas.

O primeiro, no dia 7 de janeiro de 2015, 12 pessoas morreram depois que extremistas ligados à organização terrorista que se autoproclama de Estado Islâmico invadiu o jornal satírico Charlie Hebdo. em Paris, e abriram fogo contra os jornalistas da redação.

A segunda ocasião concentrou vários ataques conduzidos por extremistas ligados ao Estado Islâmico, e aconteceram também em Paris na noite do dia 13 de novembro de 2015. Os atentados resultaram na morte de 137 pessoas (incluindo 7 terroristas), sendo que o maior número de vítimas, 89, foi registado na sala de espetáculos Bataclan, onde ocorria uma apresentação da banda Eagles of Death Metal.

Grupo de pessoas reúnidas no Stade de France aquando dos atentados

O terceiro ataque, como sabe, aconteceu dia 14 de julho de 2016, quando um homem de origem franco-tunisiana dirigiu um camião sobre uma multidão em Nice, no sul de França, local onde as pessoas se concentravam para assistir ao espetáculo pirotécnico em celebração ao Dia da Bastilha e, segundo as últimas atualizações, 84 pessoas perderam as vidas.

Do total confirmado até ao momento, pelo menos 10 eram crianças.

Terrorismo na Europa

Diversos países da Europa já foram palco de ataques associados a organizações terroristas ligadas ao extremismo religioso. Em 2004, por exemplo, 191 pessoas morreram em Madrid, num atentado perpetrado por uma organização ligada à Al-Qaeda – grupo que também orquestrou o ataque à rede metropolitana de Londres em 2005, que contabilizou 56 vítimas.

Ataque de Madrid, Espanha

Mais recentemente, a Bélgica (em maio de 2014 e março de 2016, com 36 vítimas no total) também foi atacada por terroristas islâmicos, mas, a França, sem dúvida, parece se ter tornado no epicentro dos atentados europeus – somando mais de 240 mortos apenas nos últimas quatro anos.

França

São ínumeros os especialistas que procuram entender a razão pelo qual a França se tem tornado o alvo primário da ira do grupo radical islâmico. Alguns, apontam o facto de o país ser um ícone da filosofia ocidental e ter sido um importante marco da liberdade, a igualdade. democracia e os valores sociais – princípios que os terroristas abominam e que acreditam estarem a ser impostos ao mundo islâmico.

Outro motivo refere-se à questão de, nos últimos anos, o governo francês ter adotado várias medidas legais que não foram bem recebidas pela comunidade islâmica. Entre elas está a proibição, em 2010, do uso de véus sobre o rosto ou indumentárias que cobrissem a totalidade do corpo em locais públicos na França, assim como as ações militares no exterior, especialmente na Líbia e em Mali, onde as tropas francesas conduziram uma das maiores ofensivas contra o Estado Islâmico fora da Síria e do Iraque.

Com efeito, em 2014, o Estado Islâmico divulgou uma mensagem na qual incentivava os seus seguidores a matar cidadãos estadunidenses, australianos, europeus ou qualquer descrente, inclusive de países que faziam parte da coligação formada para combater o ISIS, e foi especialmente enfático ao ameaçar os “imundos” franceses.

Depois do atentado a Charlie Hebdo

No mesmo ano, o grupo divulgou um vídeo em francês focado nos muçulmanos que falam esse idioma no sentido de imobilizá-los a efetuar ações terroristas. A língua francesa, por sinal, foi apontada num estudo conduzido por um grupo de analistas da Brookings Institution, como um dos factores que também relacionam a França aos ataques.

De acordo com essa investigação, os países onde se fala – ou se falou – o francês tornaram-se os maiores focos de radicalização no mundo e, efetivamente, a maior concentração de extremistas na Europa encontram-se na França e na Bélgica. Todavia, para entender a razão pela qual estes países europeus estão a mobilizar vários radicais islâmicos, é necessário aludir ao passado.

Laços com o Islão

No final do século XIX, a França conquistou a Argélia e, com isso, recebeu uma enorme quantidade de imigrantes muçulmanos deste país. Mais tarde, já no século XX, após a Primeira Guerra Mundial, a França assumiu o controlo da Síria e do Líbano – e muitos cidadãos franceses estabeleceram-se nesses países.

Toda esta conjuntura, acabou por abrir as portas para que ocorresse uma forte migração de muçulmanos para a França, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial.

A esmagadora maioria dos imigrantes assumiu cargos laborais em fábricas francesas e estabeleceram-se em áreas pobres das periferias de Paris e de outras cidades indústriais.

Manifestações em Paris

O problema é que, com o tempo, muitas dessas fábricas foram fechando e, mesmo sem emprego, os imigrantes foram permanecendo no país. Os filhos e netos desses muçulmanos enfrentam grandes problemas económicos e de exclusão social atualmente, e já se manifestaram em inúmeras ocasiões.

Para piorar a situação, ao contrário de outras potênciais coloniais europeias, a França nunca cortou totalmente os laços com os países que anteriormente ocupou, e até hoje intervém militar e economicamente nesses países para defender os seus interesses. Assim, grupos como o Al-Qaeda e o ISIS tiram proveito do descontentamento dos descendentes dos imigrantes que vivem na Europa para plantar a semente do extremismo e fomentar o ódio.

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