Para a geração que vive com podcasts e transmissão de áudio pela internet, a ideia de que o período noturno “melhora” a recepção de algumas estações de rádio pode parecer estranha. No entanto, esse era um conhecimento comum entre os mais velhos, especialmente entre aqueles que acompanham as programações das emissoras AM.

Em condições normais, as ondas de rádio propagam-se em linha reta e não conseguem ultrapassar a linha do horizonte — mesmo situadas em lugares altos, torres de transmissão não conseguem enviar os seus sinais a mais do que algumas centenas de quilómetros de distância.

Porém, não são raros os casos de pessoas que captam sinais de outros países sem a ajuda de satélites em horários próximos à meia-noite ou durante a madrugada. Isso deve-se ao facto de que a morfologia da atmosfera formada contribui para que ondas consigam viajar mais longe em períodos noturnos — no entanto, não são todos os tipos de transmissão que são afetados e é preciso respeitar certas condições para que isso ocorra de forma perceptível.

Embora seja tentador acreditar que isso acontece porque a noite é mais silenciosa ou porque tende a ser mais fresca que o dia, o verdadeiro motivo para isso acontecer reside a dezenas de quilómetros de distância da superfície. Situada entre 60 km e mil km de altitude, a camada conhecida como ionosfera tem o seu nome derivado do facto de ser composta de íões e plasma ionosférico — o que lhe permite refletir ondas rádio de até aproximadamente 30 MHz.

Mudanças nas moléculas

Durante o dia, a ionosfera é bombardeada pela luz solar, o que faz com que as suas moléculas fiquem ionizadas. No período noturno, a parte inferior dessa camada tende a perder a sua ionização, enquanto o setor superior costuma ficar mais ionizado e cheio de energia.

Com isso, as ondas rádio têm mais facilidade em penetrar pela parte inferior da ionosfera e, ao encontrar a sua secção mais densa, podem alinhar-se com os elétrões energéticos presentes. Isso faz com que a frequência de rádio ganhe mais intensidade e seja enviada em direção à Terra — dependendo das condições atmosféricas, isso pode acontecer diversas vezes seguidas, aumentando consideravelmente o alcance de uma emissora.

O efeito pode ser tão grande que uma estação AM pode acabar por ser captada a milhares de quilómetros do seu ponto de origem porque as suas ondas foram enviadas entre a superfície e a ionosfera. Isso possibilita que uma rádio baseada no meio do continente europeu seja captada na Inglaterra, por exemplo.

Por outras palavras, isso torna-se numa receita perfeita para que a programação de uma estação interfira nos sinais de concorrentes localizadas a grandes distâncias. Isso deve-se ao facto de que somente pouco mais de 100 frequências de rádio AM têm o seu uso autorizado — em compensação, em lugares como os Estados Unidos, há mais de 5 mil rádios AM em operação.

Soluções adotadas

Como resultado, muitas estações tendem a reduzir o seu poder de transmissão durante o período noturno ou simplesmente encerram a sua programação a partir de determinado horário. Outra solução comum envolve o uso de antenas direcionais para evitar que um sinal específico interfira com as demais emissoras que operam na mesma frequência.

Estações FM não precisam lidar com tais preocupações porque a ionosfera não influencia de forma relevante as suas transmissões. Em compensação, isso traz como efeito colateral o facto de que rádios que usam essa tecnologia precisam de se contentar em atingir uma área relativamente menor do que aquelas baseadas em sinais AM.

É de notar que não é somente a ionosfera que pode influenciar na qualidade das transmissões de uma rádio ou de uma rede de televisão. Durante o período noturno, factores como a diminuição do ruído solar e das interferências causadas por indústrias em operação também ajudam as ondas a se difundirem por distâncias maiores.

Fonte: Today i found out

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